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terça-feira

Cede-se

Publicado a 20-01-2009
O que é possível ceder que não seja material? Pode ceder-se um espaço comercial, cobrar um valor por uma posição contratual que se mantenha num negócio, colocar um objecto à disposição para posterior dividendo. Colocam-se anúncios em jornais, na internet ou em locais estratégicos, de forma a dar a conhecer a cedência a um possível interessado. E se quisermos ceder a nossa alma? Não é algo material. Não é algo que possa deter um valor comercial. Não é algo que seja passível de negociação para a sua cedência. Se quisermos ceder a nossa alma e por inerência o corpo acarretado, de que forma o anunciamos? E a quem o queremos anunciar? Porque o amor não se cede. Partilha-se. Assim como a amizade ou até mesmo a fraternidade. Mas quando não conseguimos suportar o peso e a responsabilidade de nós mesmos, não partilhamos. Cedemos. Talvez procuremos dividendos de retorno. No entanto, acima de tudo, é o alivio e a redenção que queremos obter. E aí, cedemos. Por isso, não é de mais insistir numa ideia. Quando queremos ceder a nossa alma, a quem e de que forma o queremos anunciar?
A Tania enfrenta um peso. Que se distribui por entre a sua alma e progressivamente pelo seu corpo. Dentro da casa de banho do 2º direito, a jovem vai despindo as calças, ao mesmo tempo que a água a escaldar corre freneticamente do chuveiro. Enquanto retira a camisola, ela olha-se ao espelho e confronta-se com as formas do seu corpo, coberto apenas pela lingerie branca. Tania vive um dilema. Dentro de si, tudo se transforma e ela simplesmente não quer mudar. Tal não quer dizer que ela afaste a ideia de prosseguir a concepção criada pelo seu próprio íntimo. Tania está grávida de três meses e procura encontrar a melhor forma de aceitar um futuro já quase escrito. Encerrada num espaço que lhe é cedido e não dado, ela aproveita aqueles instantes para confirmar as transformações do seu corpo e idealizar objectivos. Entra dentro da banheira, já depois de ter solto o soutien e as cuecas que lhe parecem apertadas.
Na sala de estar do 2º direito, Laura e Afonso saboreiam o momento após o jantar. Sentados no sofá vermelho, eles olham para as últimas reportagens do bloco noticioso, percebendo que olham sem a mínima atenção para o que é exposto. O jantar terminou em algum silêncio. A filha de Laura saiu apressadamente para mergulhar nas brincadeiras constantes que o seu quarto permite. Tania mantinha um semblante carregado, algo distante, demasiado ansioso. Por um par de vezes, a namorada de Afonso procurou chegar a ela, mas sem sucesso. A encarregada de loja sabia de antemão que nem sempre era possível alcançar a alma da sua funcionária. Por isso, o casal deixou-a sair da mesa, deixando a arrumação do que sobrou do jantar para eles. Laura e Afonso percorreram o corredor entre a sala e a cozinha por um punhado de vezes e aperceberam-se dos movimentos de Tania. Ela entrou na casa de banho, encerrando a porta. A noite ainda agora tinha começado e eles preferiram ficar na expectativa, aguardando pela reacção da jovem. Encostaram-se no sofá, com os braços envoltos, com beijos meigos escondidos.
- Estive a falar com a Sofia... - solta Laura.
- E então?!
- Oh!...É o que nós dizemos. Têm andado distantes, com muito trabalho...
- Com o Gustavo...
- Diz que sim... Que têm saído quase todos os fins-de-semana...
- Era o que nós tínhamos perspectivado.
- O Diogo tem saudades das nossas noites...
- Não me vais dizer que eles vão aparecer cá hoje.
- Afonso...temos que combinar qualquer coisa...eu também tenho saudades deles.
- Deles ou do Gustavo?
- Tu sabes o que é que eu gosto, amor...
- O que é que tu gostas?
- De te ver dentro da boca dela...
- ...Da boca dele na tua rata...
- De me vir ao lado dela.
- Para depois ele te possuir?
- Eu quero, Afonso...
- Eu não disse que não!...Ou disse?! Como é que ficamos?
- Bom...eu não quero trair a Tania... Mas eu vou voltar a falar com a Sofia e...
- ...Laura!...
Ouve-se um pedido vindo do interior da casa de banho do apartamento. Tania já terminou o banho e clama pela presença da sua colega de trabalho. A mulher sorri e olha para o seu namorado com desejo. Afinal, este casal dispõe de uma amiga intensamente íntima a morar debaixo do mesmo tecto. Sim, eles respeitam a novel condição da jovem grávida. Mas acima de tudo, eles percebem que progressivamente conseguem um afecto particular por uma pessoa que até há bem pouco tempo era vizinha deles. Laura entrega um beijo veemente na boca de Afonso, suscitando alguma excitação, mas também curiosidade pelo pedido da rapariga. Ela levanta-se e segue até à casa de banho. Bate à porta levemente e aguarda que Tania a deixe entrar.
- Precisas de alguma coisa, Tania?
- Não... Não, não preciso, mas...
- O que foi?...Fala comigo...
- Não é preciso, Laura... Tu estavas com o Afonso...eu não queria interromper...
- Ele fica bem... Eu estou aqui contigo...
Laura encerra a porta da casa de banho e ao mesmo tempo invade o pescoço da amiga com a sua mão. Tania está nua. Nem sequer uma toalha envolve o seu corpo. A água do banho ainda escorre pela sua pele e o seu cabelo está completamente ensopado. Tania apresenta-se pura e limpa. Trancadas nos lavabos, as duas mulheres sentem-se protegidas. Como se precisassem daquela intimidade.
- Tenho medo, Laura...
- Do quê?!
- Disto!...Tenho medo desta barriga, tenho medo de o trazer ao mundo...Tenho receio de que não esteja preparada para ser mãe...
- Já falámos sobre isso... Nenhuma mulher está pronta quando está grávida... E tu não és diferente. Ainda falta muito tempo e até lá é só uma questão de te habituares à ideia.
- A minha barriga vai crescer. Eu vou ficar uma gorda e ninguém me vai querer.
- Eu quero-te... O Afonso também te quer... E certamente que haverá um homem à tua espera para desejar essa tua barriguinha.
As mãos de Laura são atrevidas. Depois de acariciarem o pescoço de Tania, deslizam pelos ombros molhados dela. A jovem gosta do gesto duplicado. As mãos da inquilina têm o condão de espalharem ternura e ao mesmo tempo sentimentos ocultos. Os olhares entre as duas mulheres querem tocar-se. Querem comunicar e dizer o que pensam naquele instante uma à outra. Ouvem-se as respirações. A de Laura é calma mas impulsiva. A de Tania é nervosa mas expectante. A palma das mãos da namorada de Afonso apertam a carne dos braços de Tania. A jovem deixa descair ligeiramente a cabeça para sua esquerda, demonstrando o arrebatamento pela presença da amiga.
- Nós precisamos que relaxes... Tu precisas de relaxar...
- Agora já me sinto um pouco mais calma...
- Sentes?!
- Sim...
Laura solta um sorriso. Percebe que consegue aproximar-se da amiga. Denota na forma como os ombros dela libertam a tensão que se evidencia no corpo de Tania. A água continua a escorrer pela derme até pingar no mosaico branco do chão. Os braços da jovem encolhem-se, apertando o seu peito volumoso, húmido e rijo. Num único gesto, ela consegue demonstrar a Laura que se sente confortada e ao mesmo tempo desejada. E enquanto aconchega as mamas, a rapariga cerra ligeiramente as pálpebras, procurando manter o olhar em Laura.
- O que vai acontecer amanhã não interessa, Tania.
- Não?!
- Não... Vais ter o bebé, de uma forma ou de outra... Isso eu tenho a certeza e tu também tens que ter... Mas até lá, quero que penses que fazemos parte de ti.
- Como assim?!
- Hoje...e nos próximos dias, estes seios são nossos.
A mulher gira os pulsos e move as suas mãos em direcção aos mamilos redondos de Tania. Enche os dedos com as glândulas mamárias da jovem e acaricia ternamente a zona erógena feminina. Ligeiramente surpreendida, Tania inspira ferozmente e fecha os olhos. Dilate a sua boca, deixando evidente o seu deleite por aquelas mãos apalparem as suas mamas.
- São?!!...
- Sim... Tens que nos confiar estas mamas...
- Porquê?!
- Porque nós gostamos delas... Sentimos que cuidamos delas com toda a devoção. Sentes como eu as aprecio?
- Siiim.....
- Quero que aceites entregar-nos o teu peito.
- Com que intuito?
- Vais sentir-te a mulher mais sensual que alguma vez imaginaste.
E Laura continua a deliciar-se com aquele fantástico peito. É visível a excitação da jovem ao sentir as carícias que percorrem a pele macio dos seus seios. É evidente a forma com os bicos se tornam mais rijos, quando as falanges dos dedos de Laura esfregam os mamilos. E a pressão que as mãos da mulher exerce é simplesmente arrebatadora. A namorada de Afonso aproxima-se um pouco mais da sua amante. Tania, por sua vez, recua ligeiramente, até tocar com as nádegas húmidas na cerâmica fria do lavatório.
- São vossas... Eu confio em vocês, Laura...
- Eu quero mais do que isso...
- Mais?!...
- Sim... quero que não tenhas pudor...
- Eu não tenho pudor...
- Quero que andes nua em frente ao Afonso...
- Não sei se...uhmmm... estou a engordar na barriga...
- A tua barriga está linda... Vai ficar irresistível...dia após dia...
- Laura...
- Tania... Eu quero que nos dês tesão ao mostrares o teu corpo.
Após excitar as mamas de Tania, Laura volta a prosseguir o trajecto com as mãos. Desta vez, toca ao de leve na barriga da jovem, que naturalmente se vai modificando. Nota-se uma pequena saliência, conjugada com umas ancas ligeiramente mais cheias. O contorno que as mãos de Laura desenvolvem nas curvas de Tania pretendem demonstrar exactamente isso.
- És uma grávida excitante... Eu e o Afonso queremos isso...
- Uhmmm...isso o quê?!
- A tua provocação...
- Pára com isso, Laura!.... Estás a deixar-me....
- O quê?...Estou a deixar-te molhada?
A mão direita de Laura é curiosa. Escorrega pelo ventre de Tania e perfura entre as coxas torneadas da jovem. Inicialmente, a rapariga grávida recua a cintura, cerra as pernas e abre os olhos. Mas depois, ao perceber que já não há retorno, que Laura lhe cinge um olhar de tesão e que ela própria se descontrola perante a sucessão de acções, Tania cede. A mão direita de Laura é atrevida. Os dedos penetram por entre as coxas e friccionam os lábios vaginais encharcados da jovem. O corpo de Laura está praticamente colado ao da amiga. O braço direito de Tania envolve-se no tronco da mulher e a mão esquerda segura-se ao lavatório. Os lábios grandes da rata da grávida estão inchados e escondem um clitóris rijo.
- Isto.... Isto, Tania... É tanto teu....como nosso...
- Isso é posse...oohh...
- Não... é uma cedência... Eu sei que tu precisas...eu sei que tu queres...
- Diz-me o que eu quero, Laura!!
- Tu queres que nos te possuímos....
- Ohhh...siiimmm...Quero... Laura... A minha rata é tua... A minha rata é do Afonso... Ohhh...
O polegar de Laura domina o interior da vagina da jovem. O braço de Tania já clama pelo abraço e aperta a amiga contra o seu corpo húmido. A masturbação enfeitiça-a e deixa-a completamente fora de si. Ainda assim, Tania está consciente. Ela deseja tudo aquilo. O seu corpo vibra e ela sabe porquê. A volúpia das suas formas ganha consistência e ela sabe por quem pode suar todo aquela sensualidade. E enquanto Laura segura o seu clitóris, Tania senta-se no lavatório, sabendo que quer mais. Sabendo que precisa de ceder algo mais à sua amiga, ao casal que a toma debaixo do seu tecto e a faz sentir mais completa. Porque dentro de toda a surrealidade daquela ligação, Tania sabe que precisa deles. Não lhes pode pertencer. Não pode considerar-se eternamente deles. Não pode adquirir a devoção de Afonso nem possuir o carinho de Laura. Mas pode emprestar todo o calor e carência da sua alma, pode ceder a libido do seu corpo e gozar de toda esta envolvência até a sua vida ter que seguir o próximo passo.
- És uma menina linda, Tania... E se confiares em nós, conseguirás sentir-te uma verdadeira mulher...capaz de tudo...
- Siiim...Eu acredito em ti.... - sussurra Tania - Ohhh, Laura.... acredito!!.... Estou quase...ohhh...estou quase a vir-me...Eu acredito em ti, Laura....Por favor.... eu quero mais!....
As pernas de Tania abrem-se. Por entre os seus lábios vaginais, corre um misto de líquido intimo e água tépida que insiste em brotar dos seus cabelos. Laura ajoelha-se no chão molhado. Prossegue o seu esforço em demonstrar a Tania que, mesmo grávida, o seu corpo é voluptuoso, sensual e irresistível. Acaricia as coxas, fazendo com que as pernas se dilatem um pouco mais. Acaricia as nádegas, apertadas contra a cerâmica do lavatório. E depois, assim que Tania se segura às torneiras, assim que o seu corpo está completamente volátil, assim que a rata da jovem clama por ser arrebatada, Laura molha os seus lábios e avança.
-//-
A porta da casa de banho abre-se. O vapor que ainda se mantinha dentro da divisão evade-se para o corredor da casa. Cá fora, tudo parece manter-se tranquilo. A menina já se deixou adormecer em cima da cama e na sala a televisão já entrou no horário nobre. Laura sai da casa de banho com as roupas ligeiramente molhadas e com as maçãs do rosto ruborizadas. Atrás de si, Tania tem uma toalha envolta no corpo e corre até ao seu quarto. No sofá, Afonso parecia aguardar por aquele instante. Como se estivesse aborrecido por ter que ficar sozinho a fazer zapping. Laura aproxima-se dele com um sorriso. Por detrás do sofá, ela recosta o seu corpo e cola o seu rosto à cabeça do namorado. Ele pressente o calor da pele dela. Leva a mão aos cabelos femininos e reclama algum carinho. Laura roça a ponta do nariz na bochecha dele. A mulher ostenta um sorriso perverso. Gera-se algum silêncio. A menina já não irá acordar e Tania não ousará sair do quarto. A lição pura e simplesmente que a arrebatou. Laura solta a sua voz baixinho junto ao ouvido de Afonso.
- Não precisas de o esconder....... Eu sei...... Eu sei que estiveste o tempo todo atrás da porta da casa de banho...
E num gesto sublime, carinhoso, mas ao mesmo tempo lascivo, Laura suga os lábios dele, cedendo-lhe um beijo prolongado, misturado com a língua e em que pedia que ele devorasse os lábios meigos dela. E nesse beijo, Afonso prova a delicia pertinente da rata de Tania, antes da sua namorada lhe soltar um sorriso perverso e o chamar para a cama.

segunda-feira

O Sonho

Publicado a 03-10-2008
Resumia-se numa obra erótica. Pintava-se de formas cúbicas tal como o seu consciente o via e de traços redondos, exactamente como o seu sub-consciente gritava. A pintura da amante de Pablo Picasso guardava no seu ventre um mistério até hoje indecifrável. O Sonho de Picasso é o acordar de um desejo intimo, repousado na mente de qualquer mulher. Esta forma de arte desvenda as fantasias privadas e puras de uma mulher, sentada aos olhos de quem a admira, com os dedos encruzilhados na sua essência. Mais do que satisfação pessoal, esta jovem amante revela em si um superficial segredo, incapaz de se suster naquilo que aparenta realmente.
- Cheguei!!...
Onze da noite e mais alguns minutos. A isolada Tania abriu a porta do 2º direito e confirmou a sua chegada, num tom de voz agudo. Talvez não tenha realizado o tardio avançar das horas. Talvez nem sequer se apercebeu que a casa onde agora vive, respira um outro ambiente. O mais provável é regressar de amarguradas memórias recentes, perdendo alguma noção da realidade. Certo é que Tania entrou na casa da sua amiga e colega de trabalho chamando a atenção de quem estava no seu interior. A filha de Laura não dormia em casa. Um fim de semana prolongado em casa do pai justificava essa ausência. É provável que Tania soubesse deste pormenor. Mas só na sua imaginação mais profunda ela podia ter em conta que a mãe da criança e o seu namorado estivessem no quarto de casal, a partilhar intimidades na cama que lhes pertence. Ao fechar a porta do apartamento, e apesar de ter recebido uma brisa de silêncio vinda do corredor, a jovem repara que um breve ruído fugiu da porta do lado esquerdo. A sua pose congela. E num instante, ela parece despertar do seu estado anestésico. Compenetra-se finalmente na casa onde entrou e deduz o que possa estar a ocorrer.
- Tania?! - solta a voz de Laura, vinda da divisão particular.
- ........Sim?!...
- Podes entrar, se quiseres....
- É melhor não...
- Nós queremos que entres.
- Deixa estar.
- Tania, por favor....
Ela respira fundo. Pousa a mala no chão do corredor e prendendo de novo a respiração, dá cinco passos até ter a cama do casal amigo ao alcance da sua vista. Em cima do colchão, estão deitados Laura e Afonso. Cobertos apenas pelo lençol branco que tapava ambas as cinturas, os seus corpos estão totalmente nús. É perceptivel a união das cinturas. É notório que Afonso está dentro da namorada. Laura está de costas para ele, com a anca direita sobre o colchão, com o pescoço suado, com as mamas entesadas, com um sorriso frenético na face. E cada um dos elementos do casal olha para a amiga com um semblante tão divertido como natural.
- Estavas com medo? - pergunta Laura.
- ...Não... Mas também não gosto de interromper as vossas....
- As nossas fodas??.....Tania, tu também fazes parte das nossas fodas...
- Não faço não...
- Claro que fazes...
- Não todas...Quando eu não estou vocês fazem o que quiserem, que eu não tenho nada a ver com isso...
- Mas....agora estás aqui...e nós estávamos...
- Sim, ok! Eu sei! Já percebi... Parece que fizeram de propósito...
- Se calhar fizémos...
Gera-se um silêncio. Uma troca de olhares. Uma atenção envolvente por entre os três semblantes. Tania fica incólume, não mexe um cabelo. Afonso tem um sorriso ansioso na face. Laura parece que tem a perfeita certeza de que a amiga vai aproximar-se. Tania continua incólume, mas fraca para resistir.
- Não me vou meter aí na cama com vocês...
- Porquê?
- Porque não!!!
- Tania...vá lá....estás a enganar-te a ti mesma.... Queres ou não?
- Não!... Quer dizer, não é que não queira, mas não tem muita lógica...mas não quero...ou talvez queira mas não seja o que deva fazer...... Vou-me sentar aqui!...Ok?...Vou sentar-me aqui....
Tania senta-se numa cadeira que está junto à porta do quarto, mesmo defronte da cama. O seu peito está nervoso. E apesar de não saber bem o que fazer, o que é certo é que ela não tira o olhar do casal amigo, nu e com a pele sensível.
- Faz o que achares melhor...Mas...nós não vamos parar....Queres parar, Afonso?
- Agora não!....
- Fico a ver-vos....
- É isso mesmo que queres fazer?!
- Acho que é...
- E vais ficar assim vestida?
Começa a faltar perspicácia a Tania para conseguir responder. O jogo de palavras soltas vai-se desvanecendo. E a jovem começa a preferir agir em vez de ousar responder. Porque as palavras já a levaram mais longe do que previa. E no momento em que ela abria o botão das suas calças de ganga, tudo aquilo parecia um sonho. Um daqueles que a fazia tocar-se em noites sós. Um semelhante à fantasia de viver intimidades com o casal amigo. Só que mais uma vez, a fantasia ganhava contornos concretos. É no mesmo instante que Afonso tira o lençol de cima da cintura dos corpos deitados na cama, que Tania refugia a sua mão direita dentro das calças. Laura sorri e sente a mão do namorado invadir o seu ventre. Ele abre-lhe as pernas e revela a rata molhada da mulher, ainda com o pénis teso preso lá dentro. Ouve-se um gemido leve de Tania, assim que um dedo roça os lábios vaginais. Naturalmente, a expressão da jovem provocou uma excitação ainda maior no casal que voltava a envolver-se na cama. Afonso coloca dois dedos por entre as pernas da namorada, olhando ao mesmo tempo para Tania.
- Vocês são loucos....uhmmm...oohhh...são loucos....ahmm...não pares, Afonso...
- Sim...não pares, Afonso....dá-me mais....mais....
A masturbação desenvolve-se em duas mãos. Os dedos do jovem procuram os pontos sensíveis que ele conhece. E de cada vez que toca no clitóris palpitante de Laura, a mulher inspira fundo, cerrando os olhos. Os dedos da jovem na cadeira tentam estimular os lábios vaginais, roçando o polegar no clitóris saído. Mais do que voyeurismo, Tania coloca diante de si uma imagem fantasiosa dos seus amantes. Mais do que o envolvimento do casal, Tania proporciona o seu sonho. E a pouco e pouco, distancia-se daquele lugar. Ela tem dificuldade em manter a serenidade. Os dedos querem mais, o intimo vai engolindo os seus dedos. Apesar de não baixar muito a peça de roupa envolta às pernas, a jovem abre-se e deixa que o seu inconsciente comande. Afonso está excitado com toda a cena e enquanto fricciona os dedos dentro da rata molhada ao seu dispor, apalpa os seios de Laura, notando também que a sua tesão está efusiva.
- Ohhh...amor...oohhh...siiimmm...olha para ela...olha!!...Ela vai-se vir...uhmmm....
É verdade que Tania entra agora no auge do seu próprio prazer. Mas Laura deixa de conseguir controlar-se a si mesma. Os dedos do namorado, misturado com a delicia do orgasmo da colega de trabalho, forçam o deleite em todo o seu corpo. O seu sexo explode. Palpita na intensidade do toque. Encharca-se na fluência da excitação. E mesmo que Afonso continue a masturbar com as pontas dos dedos, a mulher afronta-se com a magnificência do prazer interior do seu corpo. Ele percebe que Tania está louca. A jovem quase que se deita na cadeira e percepciona que ela enfia os dedos profundamente na rata. Ela geme, com os dentes cerrados, com as pálpebras a tremerem, com a mão esquerda a apertar o ventre. Afonso guarda nos dedos o liquido da namorada, dando um último toque terno nos lábios vaginais. O corpo de Laura já não treme, apesar da vibração ligeira que ainda percorre a pele feminina. Ele sabe que está entesado. Surge-lhe a indecisão. Prolonga o prazer com a namorada, mesmo após a envolvência antes da amante chegar? Ou acode ao desejo emergente de Tania, derretida na cadeira? Olha para Laura, ainda desorientada. Olha para a jovem, que por um instante abre os olhos e entende que a acção sexual parou por uns momentos. Ele pula do colchão e vai sentar-se, nu, no fundo da cama.
- Vem cá!... - diz ele.
Tania já se ajoelhou no chão. O seu corpo vibra com a masturbação. Com a mão direita ainda dentro das calças, ela avança de joelhos até às pernas dele. A mão esquerda dela acaricia as coxas dele e Afonso amacia os cabelos da jovem. Um breve olhar entre ambos e depois, com suavidade, com delicadeza, com frontalidade, o sexo entesado de Afonso penetra na boca ansiosa de Tania.
- Eu sabia que era isso que estavas a imaginar, Tania....
Laura liberta um riso entusiasmado, satisfeita pela opção tomada. Quer pelo namorado, quer pela amante. A boca carnuda de Tania segura o pénis estimulado. De olhos fechados, de cabeça tombada para baixo e apenas com o auxilio da mão esquerda, a jovem abocanha o objecto do seu desejo premente. Na verdade, a amante tinha o sonho. Vibrou com ele. Rodou-o como um filme dezenas de vezes na sua mente antes de se vir. Pressupôs a cena de diversas formas. Ajoelhada no chão. Submissa às ordens das mãos gentis de Afonso. Cheia dele na sua boca. A segurar o sexo com a lingua. Sim. Isto estava no sonho da amante. Tal como na pintura.
- Sim...uhm...Tania...sabe bem....uhmmm...não pares... - solta Afonso.
- Nós não queremos que pares...oh, não, não queremos.... - diz Laura com um sorriso.
E da garganta de Tania só se ouve ligeiros gemidos e sopros libertados do nariz. Afincadamente, a jovem delicia-se com a sua fantasia lasciva. Porque ela quer mais. É visível que anseia por mais. Mas enquanto a mão se aquece por entre as suas pernas, ela prazenteia o amante com um broche delicioso. E Afonso sabe a devoção que Tania liberta naquela acção oral. Laura assiste. Tem uma visão privilegiada do momento e saboreia cada instante do prazer proporcionado ao seu namorado. Porque aquilo excita-a. É perceptivel que a põe fora de si. E a tesão de Afonso tem uma implicação. A mente dos três sabe que não termina naquele broche suave e ligeiramente silencioso. Tania necessita de exprimir-se. De libertar algo dentro de si. Mais ainda. Intensamente mais ainda. Depois de molhar toda a picha dele, chupar com os lábios fofos a ponta do pénis e apalpar os testiculos com um pouco mais de pressão, a jovem pára. Cessa a masturbação pessoal. Termina o broche. Conclui esta etapa. Tania levanta-se harmoniosamente e acaricia de novo o seu ventre. Puxa a camisola negra que traz vestida e vai-se despindo. O soutien negro aperta os seus seios de uma forma excitante. E por onde as mãos de Tania roçam o seu próprio corpo, o olhar de Afonso acompanha. Os dedos empurram as calças. Um pé ajuda o outro a descalçar-se. E cedo Tania está apenas e só de lingerie. Tanto Laura como o seu namorado ficam estáticos a olhar para o corpo voluptuoso e sensual da amiga, inquilina e amante.
- Preciso de falar uma coisa com vocês? - diz Tania, suavemente.
- E precisas mesmo de falar agora?!....
Afonso parece ignorar a mulher que tem diante de si, mas na verdade, ele comunica com ela de outra forma. A mão dele desliza pela barriga de Tania. Toca no umbigo e amacia o ventre. Há uma ligeira comoção nos músculos da jovem. Solta-se um suspiro. Afonso ergue a cabeça e por sua vez o olhar. Ela cala-se. A ansiedade do momento, bem como a ternura do toque deixam-na atordoada. Laura mantém o silêncio. Assiste a tudo com uma imensa expectativa. Nem ela entende exactamente o que quer o seu namorado. As mãos dele estão agora nas nádegas macientas de Tania. Apalpam-nas e aproximam-na vagarosamente. Mas assim que os dedos puxam as cuecas negras e as fazem deslizar pernas abaixo, tudo estava lançado. Um movimento seco e repentino empurram ocorpo de Tania contra o de Afonso. Ela senta-se no colo dele e finca os dois joelhos no colchão. E olhar dela brilha. Treme ao sentir a picha dele roçar nos seus lábios vaginais. Dois segundos depois, a carne erógena do namorado de Laura irrompe na rata de Tania, roçando no clitóris inchado. Instintivamente, os braços dela envolvem no pescoço do homem. O abraço transmite confiança a Afonso, mas acima de tudo passa a ideia de que ela quer ser possuída. Afonso tinha os seios salientes da jovem colados à sua cara. Laura estava agora um pouco mais próxima. Atenta aos movimentos do seu namorado e presa às emoções de Tania.
- Eu quero dizer uma coisa!...Ohhh... - solta Tania, com os olhos cerrados.
- Diz!...Podes dizer...uhmmm...Podes falar....
Mas Tania parece não ter certezas sobre a exactidão do momento para soltar palavras. A sua rata vai estando cheia com o sexo dele. As suas ancas movem-se, ao sabor da excitação e das mãos de Afonso. O abraço anestesia o sentido lógico do que quer desabafar. E a foda vai começando a saber demasiado bem. O êxtase dos dois corpos já vem sendo prolongado. Afonso sabe que atinge um limite e Tania tem a rata a latejar. A jovem cavalga progressivamente sobre o colo do amante, ao mesmo tempo que sente os pulmões a abrir e o coração a bater forte. Enquanto Tania pula com empolgamento sobre o colo do amante, quase a vir-se, Laura aproxima-se da amiga. Acaricia as costas do namorado e dá um beijo leve nos lábios palpitantes da jovem. Percepciona o olhar perdido de Tania e procura agarrá-la.
- O que queres dizer?!...Uhm?? Diz!....
- Não!...Uhmmm...ooohhhh...não!
- Diz! estás-me a deixar louca...uhm...vá lá...diz...
- Não!!...
- Diz!
- Ohhhh!...Estou grávida!....
-/-
Os três corpos estendem-se na cama. Estão todos nus e suados. Tania já nem sequer veste o soutien. Está deitada de barriga para baixo, com as mãos a agarrar as próprias mamas. Tem o olhar virado para a parede do lado direito da cama. Afonso está deitado de barriga para cima. Tem os braços estendidos, mas não toca em nenhuma das mulheres. Olha para o tecto com um ar absorto. Laura está deitada de lado, com a cabeça pousada sobre o braço direito, esticado para cima. O seu olhar fixa-se entre as nádegas da amante e no fundo das costas. Passam menos de três minutos desde o orgasmo e a revelação de Tania. Ainda não foi trocada uma palavra mas há pensamentos velozes que quase parecem ouvir-se entre os três. A jovem respira fundo.
- Desculpem....eu sei que deveria ter dito antes... - diz ela.
- Nem sei o que dizer.... - tenta responder Laura.
- Como é que isso foi acontecer? - soltou Afonso.
- O que é que eu faço agora à minha vida?
- O que é que tu fazes?!!! - diz Laura - O que é que nós os três fazemos....
- Eu não quero envolver-vos nisto... - responde Tania.
- Mas tu não vais passar por isso sozinha, Tania. - desabafa Laura - Quer dizer, seja lá o que fôr que vás passar... mas...
- Desculpem-me...eu sei que devia ter dito antes...mas estava tão confusa e nervosa que dexei as coisas andar...
- Há quanto tempo é que soubeste isso?
- Desde os teus anos...
- Meu Deus!...Isto é uma loucura!....
- Bolas, Laura...também não é contigo que está a acontecer!...
- Estás a tentar dizer que não me afecta?! O que queres que pense?
- Que estou grávida...que nunca pensei que pudesse ser mãe...assim...desta forma...
- E achas que eu pensava? - responde Afonso.
- Pensavas o quê?!... - diz Tania nervosa - Bolas, eu não vos estou a pedir nada...apenas estou a desabafar que estou grávida há onze semanas e não sei o que hei de fazer!
- Onze semanas?!!!
- Sim...Mais ou menos, foi o que o médico me disse....Mas porquê?
- Onze semanas?...mas nós só há duas semanas é que... Quem é o pai?
- O Filipe!!...Mas quem é que havia de ser? Achas que eu estive com mais alguém sem ser o Filipe e...?? Espera!!...Vocês pensavam que eu estava grávida do...? Não!!!!
- Estás grávida do Filipe?... - tenta confirmar Laura.
- Tens a certeza que são onze semanas? - diz Afonso no mesmo tom.
- Não...Talvez até possam ser doze......Laura...Afonso...eu estou grávida do Filipe!...Lembram-se, aquele gajo que me pôs os cornos com a amante da minha amante?
- Sim, Tania...
Laura liberta um suspiro. De alivio. De confusão. Agora que ela segue todo o encadeamento de acontecimentos, a namorada de Afonso consegue tranquilizar. O próprio Afonso ainda tenta recuperar o ritmo cardíaco normal. Apenas Tania continua desorientada. A sua confissão parecia acarretar uma cruel realidade, mas ainda assim, ela ainda se sente perdida. Afinal, não estava mesmo nos seus planos ser mãe solteira, ainda por cima a viver com um casal amigo e amante. A surrealidade da ocasião não podia parecer maior. Laura encaixa a ideia e tem finalmente um gesto acional perante a amiga. Ergue o seu corpo e vai abraçá-la. Dá-lhe um beijo na face e traz as palavras certas.
- Tania...entendo...não vai ser fácil...acredito que não vai ser...Mas vamos encontrar uma solução... Estás grávida...vais ser mãe e...ouve o que te digo.... Vai tudo correr bem....
Com a respiração ainda presa, Tania alivia a pressão que tinha em cima dos seus ombros. Partilha o abraço com a sua colega de trabalho e segura toda a confiança que Laura lhe transmite. Não obstante a revelação, a rapariga do sonho consegue ficar entre o casal do qual é amante. Como uma menina confusa, Tania só quer adormecer na certeza do que Laura e Afonso lhe possam entregar daqui em diante.

Dez e dezanove

Publicado a 10-07-2008
- Desculpem o atraso!...
A terceira cópia da chave da porta de entrada do 2º direito pertence-lhe. Tania toma-a como emprestada, mas para todos os efeitos é sua. A porta de entrada do seu lar alternativo fecha-se e diante de si estão Laura e Afonso. Nas mãos deles estão pratos e travessas e copos e talheres e guardanapos amarrotados. O ar deles mistura satisfação e desapontamento. O casal entra na cozinha e Tania procura uma justificação atempada e certeira.
- Ainda tive que ir à baixa...Está tudo fechado e quando voltei da loja já não encontrei nada aberto... só na baixa... Laura... Desculpa...
A jovem entra na cozinha e procura fixar o olhar na sua colega de trabalho. Entende algum desprezo evidenciado pela amiga. Tenta encontrar o melhor perfil para chegar até ela. Laura coloca os copos no lava-louça e lava as mãos.
- Eu sei que cheguei atrasada à tua festa de anos... mas não consegui chegar mais cedo... Eu sei que me vais matar, mas a tua prenda de anos estava encomendada e só pude passar lá hoje e depois tinha que passar por uma...
- Cala-te...
A voz suave de Laura é suspeita. Ela parece estar mesmo chateada com o facto da sua amiga e nova inquilina ter chegado cinquenta minutos atrasada ao pequeno jantar que pretendia celebrar mais um aniversário da mulher. Ainda assim, não é uma voz irritada que se liberta da boca de Laura. Ela abre o frigorífico, retira uma garrafa de vinho rosé e segura também um copo. Tania repete o esforço de se fazer perdoar à colega.
- A sério, Laura...eu sei que vais ficar lixada comigo, mas...
- A minha filha saiu agora com o pai...
- Eu sei...
- O teu prato já está frio...
- Desculpa...
- E já ia para a cama com o Afonso, a pensar que não vinhas esta noite...
- Eu não era capaz de...
- Mas ainda sobrou um bom bocado de bolo e eu sei que gostas do vinho. Deixei-o fresco para ti...Queres vir para a sala?
A jovem não consegue esconder um ar de surpresa. Tania conhece Laura como poucas pessoas conhecem. Sabe perfeitamente quando a mulher está furiosa. Percepciona quando ela está desanimada com algo. Entende os momentos em que a sua colega liberta gestos que demonstram aborrecimento. Antes de entrar no Edifício, Tania sabia que este seria um desses casos. Ainda assim, algo se alterou no semblante de Laura. O convite para ir para a sala, quando a casa já não respira o ambiente festivo, é de todo inusitado. A oferta de bolo e vinho fresco é tentadora. A procura de amenizar o seu atraso considerável perante os anfitriões surtiu efeito. Derivado de que motivo, Tania ainda não alcançou.
- Não vais abrir a tua prenda? - pergunta Tania.
- Já abro... - responde Laura com um sorriso misterioso.
- E deixas-me dar os parabéns?
- Agora não é o melhor momento...
Laura, acompanhada da sua amiga, regressa à sala, onde até há uns minutos atrás decorria a festa do seu aniversário. Celebra-se hoje uma nova Primavera ultrapassada pela mulher madura, confiante e ciente dos novos desafios que surgem perante si. Afonso dirige-se à casa de banho, deixando algum espaço de manobra a Tania, que lhe seguia os passos. O sofá vermelho pertence agora às duas mulheres. O sofá supremo do 2º direito. A peça de mobiliário que movimenta paixões dentro do lar e vagueia na imaginação de quem já o experimentou. O sofá comprido, confortável, com uma chaise longue irresistível e um tecido com um toque surreal. Laura entende o poder inerente ao sofá. Trazer a amiga a sentar-se enquanto saboreia o vinho e o bolo de aniversário feito com as suas próprias mãos é uma mistura excêntrica que pretende terminar num propósito sensual. Tania senta-se e experimenta um conforto distinto de todas as vezes que usufruiu desta parte da sala de estar. Dá um gole no vinho rosé. Volta a repetir, provando agora um trago maior. O vinho está saboroso. O bolo é divinal. E Tania já sente a mistura. Em poucos segundos, a sua face vira-se para o lado da colega e lança um olhar intrigante. Laura sorri e aguarda pelas palavras da amiga.
- Tens ciúmes de mim?
- Desculpa?!...
- Não sei...Às vezes fico com a sensação que podes ter ciúmes de...
- De ti e o Afonso? Não. Acredita que se estás aqui... se partilho contigo aquilo que outros podem considerar que me pertence... Se te deixo a porta aberta em qualquer situação é porque....Tania, mais do que ter ciúmes de ti, tenho uma extrema confiança... Em ti e no Afonso...
- Mesmo depois de...do que......da noite de Sábado?
- Acima de tudo depois dessa noite...
- Não sei como consegues fazer isso... Eu sei que já me explicaste...Eu até já entendi.. Mas custa-me a acreditar que é isso mesmo que pensas...
- Ao contrário do que os outros pensam, o Afonso não me pertence. Eu não lhe pertenço. Eu respeito-o. E se me dá tesão ver-te em cima dele, seria hipócrita dizer que isso me fez confusão...
- Nem um pouquinho?!!!....
- Bem... queres mesmo saber?
Laura aproxima a sua face do ouvido de Tania. A boca quase se cola à orelha da jovem. Ouve-se o ruído da porta da casa de banho a abrir-se e imediatamente Laura liberta um sussurro na mente de Tania.
- Tive ciúmes de saber que a tua rata era só dele...
A jovem fica perplexa. Com o copo na mão, com os dedos ligeiramente sujos do creme do bolo, Tania procura um alvo para dirigir o seu olhar. Decide-se pela televisão diante de si. Ela percebeu exactamente o que a sua colega de trabalho lhe confessou ao ouvido. E nem sequer lhe custa a acreditar que ela disse aquilo. A maior dificuldade está em aceitar que aquilo a está a entesar. Afonso entra na sala e percepciona o silêncio que se estabeleceu, após algum burburinho que ele ouvia na casa de banho. Com um sorriso, ele senta-se ao lado da sua namorada. Laura tem uma das pernas colocada em cima do sofá, mesmo ao lado de Tania. O jovem acaricia as costas da mulher, deslizando os dedos na pele que se descobre da peça de roupa azul que ela veste. O seu queixo está colocado por cima de Laura. As suas mãos continuam a vaguear toda a área das costas femininas. E os seus lábios deslizam agora na derme do ombro de Laura. Uma vibração percorre todo o corpo dela. Como uma ignição. Como um despoletar de algo intenso. Mas a suavidade dos gestos delineados por Afonso deixam-na estática. Laura fixa o olhar em Tania, que guarda em si alguma ansiedade.
- Sobre o que é que estavam a falar? - pergunta Afonso.
- Nada... - responde Tania.
- Estávamos a referir o quão ciumenta eu fiquei da última vez... - responde Laura.
- Ciumenta?!... - volta Afonso a perguntar com alguma ironia misturada - Ciumenta porquê?!
- Não é nada!...Laura! Pára calada!
- Fiquei com ciúmes porque tu não entraste em mim.... Não me fodeste como fizeste com a Tania...
- Laura!...
- Não fui eu que fiz, amor... Foi ela...
Sobre o sofá divaga um ar de sensualidade. De conversas atrevidas e presunçosas. De opiniões excitantes e provocadoras. Sobre o sofá, propaga-se um ar escaldante.
- Não quero ouvir queixinhas... - continua Laura - Hoje é o meu dia...
- Tens razão.
Afonso responde à provocação da namorada antes mesmo de colocar a sua boca no pescoço de Laura. As mãos dele atravessam o corpo da mulher, alcançando o peito vistoso dela. Tania assiste impávida ao que acontece. Por um lado, ela não se quer mostrar como voyeur de um envolvimento íntimo entre dois namorados. Por outro lado, ela está completamente excitada. Os dedos dele puxam para baixo o decote da peça de roupa azul de Laura precipitando os seios dela para o exterior. Como duas ondas que rebentam diante do olhar da jovem, as mamas de Laura penetram na atenção de Tania. Percebe-se um ligeiro movimento de ancas da colega da aniversariante. Percebe-se um ribombar latejante no peito da jovem. Os seus pulmões suportam toda a carga excitante que o seu corpo quer fazer explodir. Ainda assim, só no seu olhar é que é visível a tesão que ela procura esconder. As mãos de Afonso desenham movimentos circulatórios nos seios da namorada e, com as palmas das mãos, entregam caricias sublimes nos bicos dos mamilos. Laura pressente o seu corpo a ebulir. As suas virilhas a escaldarem. O seu clitóris a latejar. Na energia que roça a pele dela, Afonso realiza a tesão que a sua namorada incorpora. Ele entende o que pode estar a ocorrer por debaixo da longa saia que ela veste. E quando as mãos dele já levantam a ponta do véu que cobre as pernas de Laura, Tania cerra brevemente os olhos. Sabe o que vai ocorrer, mas não sabe como agir. Enquanto as suas pálpebras a obrigam a olhar para dentro de si, a jovem ouve os ligeiros gemidos da amiga, sensível ao toque dos dedos da mão direita de Afonso por entre as virilhas. Mas ao mesmo tempo, Tania descobre o seu corpo. Desvenda os seus pontos sensíveis e alcança o poder daquilo que a estimula. A jovem perdida solta um longo suspiro enquanto agarra a mão esquerda de Afonso. Ao abrir as pálpebras, ela sente-se de novo preparada.
Afonso percepciona que as cuecas de Tania estão mais húmidas do que normalmente está. Ajoelhado no chão junto ao sofá vermelho, ele como que segura os corpos das duas mulheres. No braço direito ele sustém a postura de Laura. Ela está de pé, mas com um joelho colocado na almofada mais ao meio do sofá. De costas para o namorado, ela procura resistir e tenta saborear cada toque que o polegar do homem carrega no seu clitóris. Ouvem-se gemidos, entende-se a respiração acelerada, percepciona-se a vibração que flui do íntimo vaginal de Laura e irrompe nas nádegas ruborizadas. No braço esquerdo, ele como que faz flutuar o corpo de Tania. Sentada no canto direito do sofá, ela deixa o seu corpo enterrar-se por entre as almofadas de encosto e assento da peça de mobiliário. Por entre as suas coxas, os dedos de Afonso tocam levemente o tecido das suas cuecas brancas, ligeiramente transparentes. A excitação que as palavras trocadas com Laura provocaram, deixaram o algodão húmido. Agora, que o seu amigo masturba a namorada. Agora, que aquilo que a sua vista lhe entrega causa um estimulo intenso dentro de si. No momento que Afonso abre as suas calças e desvenda o seu ventre, é possível confirmar que as cuecas estão molhadas. E isso excita Laura. E isso empolga Afonso. E isso exalta Tania. Porque ela sente-se descoberta. Desnudada. Infiltrada. Nada a consegue fazer impedir os dedos do homem de desviarem o tecido e colocar os lábios vaginais da jovem em contacto com ar quente que rodeia o sofá. Dois dedos penetram dentro de si. Erectos, firmes e longos. Ela sente o indicador e o dedo médio roçarem nas paredes vaginais. Tudo isto até os restantes dedos cerrados tocarem no papo dela. Quando a mão pressente o obstáculo, pára. A ponta dos dedos sente o calor que se consome dentro da vagina molhada, apertada e flamejante. E depois, os dedos retornam o seu caminho, provocando mais excitação na rata de Tania. Daqui em diante, este movimento será progressivo, ritmado e repetir-se-à vezes sem conta.
Laura já está ajoelhada na almofada do sofá. As suas mãos seguram-se ao encosto do sofá e a sua cabeça inclina para o lado esquerdo, ligeiramente para trás. Ela olha para a acção que decorre por detrás de si. O seu namorado continua a masturbar a sua amiga veemente. Tania já abriu as pernas, imediatamente depois de conseguir despir as calças. Tem a barriga da perna em cima do apoio lateral do sofá. Tem um joelho encostado à coxa de Laura. Tem as mãos a segurar o pulso frenético de Afonso que a masturba com imenso vigor. O clitóris da jovem é saliente e sente o leve roçar dos dedos dele. A excitação aumenta, a tesão progride. Abrem-se dois botões da blusa da nova inquilina do 2º direito e cedo o peito dela estará ao alcance da vista do casal. Mas Laura sente mais. Mais do que a vista alcança. Nas suas costas está o seu namorado, com o braço envolto na cintura dela e os dedos a masturbarem o clitóris. Ele também tem um joelho fincado na ponta da almofada do sofá. A sua cintura encosta-se ao rabo da namorada. As suas calças estão soltas e descaem até aos tornozelos. E numa posição que tanto ousada como complexa, ele já introduziu o pénis dentro da rata de Laura. Movimenta progressivamente as suas ancas e procura satisfazer o intimo da mulher que ama.
- Estás a gostar?!...Uhm?!...Gostas que te ponha louca assim?...
- Ohhh...amor...gostooo...siim...uhmmm....entra!...Entra em mim!...Dá-me tudo! Ohhhh!...
- Queres tudo?!
- Sim...hoje és meu!! Podes-lhe dar o prazer que quiseres...oohhh...Mas hoje a tua picha é minha...ohhh...mais!
- É só tua!...Uhmmm... É só tua, amor!...Sentes que te pertence! Sentes?!
- Sim!!! Ahhh...não pares!!
Tania geme. Mais um botão e descobre-se o soutien branco da jovem. É impossível disfarçar a sua excitação, dado a visão que se tem dos bicos a pressionar o tecido da peça de roupa interior. Os olhos dela ainda não cerraram. Ela não perde pitada do que ocorre para além da sua imaginação. Porque tudo isto ultrapassa as suas maiores fantasias nocturnas. Tudo isto é bem mais intenso do que aquilo que um dia Laura lhe prometeu em conversas excitantes, por entre duas vendas na loja. O seu campo de visão não se restringe só aos dedos que continuam a masturbá-la divinalmente. O polegar de Afonso esfrega agora com firmeza o seu clitóris inchado. E ele sente que a excita, que a coloca num patamar de prazer distinto do que alguma vez o seu ex-namorado lhe pôde entregar. Mas Tania absorve mais sensações. A sua colega de trabalho e amiga esta a ter de facto o seu dia, a sua noite. Masturbada e comida por trás, a namorada de Afonso recebe as ofertas carnais que ele tão intensamente partilha. O sexo dele incha dentro da sua rata. O seu clitóris aperta-se por entre os lábios vaginais, a carne erógena e os dedos que pressionam carinhosamente o sexo dela. Laura está entesada. Procura controlar-se. Procura suportar a volúpia do desejo viril do namorado. As suas mãos seguram-se com firmeza ao sofá vermelho e o seu olhar já não quer fechar, tendo em conta que a sua amiga, enterrada entre as almofadas, com o corpo a escaldar e a rata cheia, está prestes a vir-se.
22:19 - Afonso não pára de movimentar o seu corpo e ao mesmo tempo é ágil com ambas as mãos. Penetra com vigor dentro da rata da namorada e sente as palpitações que fervilham dentro dela. O casal conhece-se. O casal entende-se. O casal prazenteia-se mutuamente com a experiência carnal que acumularam. E é no instante em que Afonso percebe que Laura vai explodir, que faz um último esforço e esfrega o clitóris de Tania de uma forma estimulante. Até ao limite. O braço esquerdo de Laura move-se e a mão apoia-se em cima do peito volumoso da amiga. Os olhares femininos trocam-se. Com uma paixão frenética. Com um sentimento surreal jamais experienciado entre elas, em tantos anos de amizade. Tudo ocorre nos corpos delas. Tudo explode no intimo das mulheres. Laura sente o namorado rebentar a liberdade dentro de si. O clitóris de Tania cede. E a vagina de Laura é um fogo de artifício intimo. Uma tempestade eléctrica assola o sofá vermelho, onde Afonso consegue criar e partilhar um momento único.
- Oohhh....Tania...diz-me...oohh...por favor...diz-me agora!
- Uhm...uhmmm..ooh...uhmmm... parabéns, Laura!
- Ohhh....Eu quero a minha prenda!
Afonso olha para as duas mulheres e assiste a um beijo apaixonante, forte e saboroso, que se prolonga na eternidade daquele momento. Laura arranca a outra prenda que só Tania lhe poderia dar nesta noite. Amigas, colegas de trabalho e numa aura inexplicável, elas são agora verdadeiras amantes.
Laura está no quarto da filha. A sua menina adormece. O seu corpo ténue está cansado, depois de um dia que pertenceu à sua mãe. Após ter ido ao cinema com o pai, ela voltou a casa e quase de imediato procurou a cama. A aniversariante coloca o édredão em cima dos ombros da filha adormecida e entrega um beijo de boa noite, mesmo que ela já esteja no mundo dos sonhos. Laura já tomou um duche rápido, tem o corpo cansado, mas ainda tem tempo para espreitar o quarto reservado a Tania e verificar que a jovem também já dorme. Laura especa a sua postura por quase dois minutos ali, a três passos da cama. Ouve-se a respiração ligeira da sua amiga e depois de vaguear pelos seus pensamentos, Laura não consegue deixar de libertar um sorriso. Sem hesitar, ela dá três passos e ajeita o édredão cama, colocando-o bem perto dos ombros da colega. Tania não acorda, mas provavelmente, na indefinição do sonho que percorre a sua mente, ela sentiu o beijo que a sua amante agora lhe entrega na testa. Laura sai do quarto. Laura acelera o passo até ao quarto. Laura retira a toalha que envolve o seu corpo e deita-se ao lado do namorado que a espera na cama que lhes pertence. Depois de uma noite de entrega, em que a aniversariante experimentou ofertas surreais, cair nos braços do amante é o concluir perfeito de um dia especial.

sábado

Reflexos côncavos

Publicado a 05-07-08
Quando a noite cai, o silêncio pode dominar. Quando o silêncio domina, o obscuro pode revelar-se. E se o campo de visão é anulado, a imaginação toma conta da racionalidade. E tudo deixa de fazer sentido. E os maiores receios misturam-se com os desejos prementes. Os impulsos dominam o controlo. O impensável transforma-se numa mera realidade. E se amanhecer, aquilo que parece um sonho excitante torna-se um pesado fantasma.
Tania aceitou o convite. Morar numa casa onde a tensão se sobrepunha à harmonia passou a ser arrasador. Sem discussões, sem palavras, sem acções. Numa manhã, ela fez a mala e colocou-a à porta do apartamento. Havia muita coisa para levar, mas a melhor opção seria apenas e só levar roupa e alguns objectos pessoais. Havia uma despedida para fazer, mas nem Tania, nem a sua amiga e colega de casa tiveram coragem de o fazer. Porque para todos os efeitos, aquela porta estará sempre aberta. Por agora, é melhor guardar uma distância. Distância, não esquecimento. Nem muito longe, nem muito perto. Até porque há coisas que pertencem para sempre a Tania naquela casa, as quais já não podem de lá sair. Sem olhar para trás, porque tudo se infiltra na sua mente. Respirando fundo, porque há ainda muita coisa a pensar. Sem aviso oficial à outra inquilina, porque pode custar demasiado. Ela fecha a porta e bate à porta do apartamento em frente. E quando a porta do 2º direito se abre, Tania é uma pessoa ainda mais perdida.
Já se contam dois dias que ela colocou a mala no quarto que Laura e Afonso reservaram para a sua amiga. Uma espécie de quarto de hóspedes, quarto dos brinquedos da filha da sua colega de trabalho, quarto que servia para imensas coisas menos para dormir. Ao seu dispor uma cama de solteiro, da qual Tania já não estava acostumada a dormir. Um pequeno armário onde cabe perfeitamente toda a roupa que trouxe. Tudo o resto, pode ficar no outro apartamento. Tania prestou-se a pagar ao casal a mesma renda que paga no lar do lado esquerdo. Laura recusa de uma forma veemente. Tania insiste. Laura nem quer ouvir falar de dinheiro. Tania aceita uma rendição, mas apenas no acordo de pagar despesas extra. O pacto é aceite. Ao mesmo tempo, Tania confessa o compromisso já verbalizado de continuar a pagar a renda que está contratualizada com a sua amiga e ex-amante.
Ao terceiro jantar com a família do 2º direito, Tania sente-se um pouco mais confortável. Já não há nada a combinar e todos se adaptaram à presença de um quarto elemento. Até a filha de Laura que ganhou um carinho ainda mais especial pela jovem, lhe custa separar a sua mais recente parceira de brincadeiras de criança e segredos infantis, quando depois da refeição o seu pai a vier buscar. Há um conforto renovado que reside no coração de Tania. Ainda assim, a noite traz sempre os seus piores tormentos.
- O que se passa, Tania? - pergunta Laura.
- Nada...é só estas noites...
- O que tem?...A cama não é confortável...
- É...é...eu acho que é...não é grande mas até se dorme bem ali.
- Se quiseres podemos trocar...
- Não tenho conseguido adormecer facilmente...
- Eu sei que não deve ser fácil...
- Também é um peso para mim saber que vos estou a incomodar e....
- Não estás! Já te disse isso... Claro que não é tão fácil dar as fodas que queremos, mas até chega a ser um desafio. Vir-me sem gritar...
- Não brinques.
- Tens ouvido alguma coisa? - troça Laura.
- Mesmo que ouça, não me incomoda. Eu abstraio-me...
- Queres dormir connosco, é isso? - continua a namorada de Afonso a troçar - A minha filha já não vem para a nossa cama, mas não nos importamos que sejas a nossa menina.
- Laura! Pára!
- Estou na brincadeira... Sabes que te temos aqui como amiga e que podes ficar o tempo que quiseres... Ou tens medo que nós vamos invadir o teu quarto?
- Tenho medo de estar sozinha... é só isso.
- Só isso?!
Tania respira fundo e desvia o olhar de Laura. Afonso ainda sorri da conversa trocista da sua namorada. Afinal, mesmo com uma boa dose de brincadeira, Laura faz questão de vincar o objectivo de Tania estar naquela casa. Existe um desejo por parte do casal de se envolver com a jovem. Mas existe também o respeito pela decisão já há muito afirmada por Tania. Ela não pretende estar no meio de uma relação que por mais liberal que possa ser, não se encaixa na confiança que Tania quer depositar numa envolvência sexual. A colega de trabalho de Laura nunca escondeu a excitação que quer ele, quer ela lhe provocam nos seus desejos mais íntimos. Mas uma fantasia não implica uma concretização. Sempre pareceu um passo demasiado grande para a jovem e o casal quis demonstrar que respeita isso. Desde o primeiro passo de Tania como moradora nesta casa.
Quando a noite cai, os fantasmas tornam-se concretos. O silêncio acomoda-se em todas as divisões da casa. O quarto da menina está vazio. As luzes estão todas apagadas e apenas uma luz ténue, vinda do candeeiro da rua, entra pelas brechas do estore do quarto onde o casal repousa. Laura está deitada na sua posição habitual, que lhe permite penetrar no seu sono profundo. Afonso está inquieto. Movimenta o seu corpo sem conseguir encontrar uma posição adequada. A única forma de conseguir pacificar é estender o corpo de barriga para cima. Com os olhos abertos a incidirem para o tecto, ele mantém os sentidos despertos.
- Estás a ouvir?!... - sussurra ele.
- Uhm?...
- Não ouves?
- Ouço o quê?!...Afonso, deixa-me dormir...
- Shiuu!...Cala-te e escuta!....
Laura vê-se obrigada a adiar o seu sono e mudar de posição. Ergue ligeiramente a cabeça e procura encontrar um som no meio de tanto silêncio. Após três segundos de suspensão, Laura franze o olhar. Ela ouve algo. Gira a cabeça, olhando para o namorado em silêncio. Seguidamente procura continuar a perceber o que ouve e dilata os lábios.
- É a Tania. - sussurra ela calmamente.
- A Tania o quê?
- Nunca o fizeste?!...Nunca estiveste sozinho num quarto e apeteceu-te...
- Apeteceu o quê?... Ela está a....
- Sim...
No quarto um pouco mais ao lado, a escuridão toma posse do espaço. Na cama que Laura e Afonso cederam à amiga, está uma jovem acordada. Absorvida na intensidade do seu pensamento e apoderada da tensão da sua mão. Tania masturba-se no segredo do seu quarto. Sozinha, sem um abraço envolvente, sem uma caricia tranquilizante, sem a certeza de estar tranquila, sem pudor de libertar a sua imaginação. Tania procura trazer luz ao seu campo de visão, de modo a que se possa embalar até adormecer. Mas tal não sucede. Os dedos manuseiam gestos excitantes nos seus lábios vaginais, ao mesmo tempo que a pressão que as pernas exercem reflecte-se na palpitação do seu clitóris. Talvez uma recordação da ansiedade que se gerava em si quando Lúcia chegava a casa. Possivelmente uma revisitação ao prazer que o sexo do seu ex-namorado lhe provoca, exactamente naquela posição. Quase de certeza uma fantasia, onde Afonso toma conta do seu desejo e Laura assiste de uma forma atrevida. Em todo o caso, Tania perde-se no deleite da masturbação. E mesmo tentando ser discreta, não consegue evitar que o ruído se liberte da sua garganta, espalhando-se pelas paredes do quarto escuro.
Laura e Afonso mantém-se acordados. Nenhum deles consegue negar a excitação que a caricia manual da amiga provocou neles. Ainda assim, mantêm-se expectantes sobre o que ainda pode acontecer, até porque a porta do quarto de Tania abre-se. Ansiosos, eles procuram perceber o que ela faz. A jovem vai à casa de banho. Demora dois minutos. Volta a abrir a porta da casa de banho. Ouvem-se passos indicadores de aproximação. Por entre a escuridão, Tania dirige-se à cozinha. Abre a porta do frigorífico e pega na água para refrescar a sua garganta. Respira fundo e com o corpo mais fresco, tenta ganhar coragem para voltar ao quarto. Ao passar de novo pelo quarto do casal, Tania não resiste a lançar o olhar. Tem uma postura taciturna e confusa. Os pequenos pontos luminosos que entram ali deixam perceber que Laura está acordada. Tania congela o passo.
- Vem cá... - diz Laura.
- Não consigo dormir... - confessa Tania.
- Eu sei...Vem até aqui.
Descalça, a jovem entra no quarto e cola-se à cama. A mão de Laura chama por ela e o toque suave da amiga tranquiliza o corpo de Tania. Elas trocam o olhar e por uns momentos há algo que paira. A indecisão, a confusão, a incerteza. Mulher madura, ponderada e meiga, Laura decide-se.
- Deita-te aqui...
Como um chamamento. Um hipnotismo racional. Uma acção provocada. Tania coloca primeiro um joelho descoberto na cama e depois movimenta o seu corpo para se deitar junto à margem do colchão, próxima de Laura. A mulher envolve o braço no corpo da colega de trabalho, incorporando um papel maternal. Segura o tronco dela, apertando-a contra o seu peito. Laura está coberto por um vestido de noite com alças. Tania tem uma camisola e uns calções de algodão apertados. Apesar da jovem conseguir acalmar ali, Laura realiza que a amiga treme ligeiramente. A mão que acaricia os cabelos da jovem é um conselho fraterno, pedindo-lhe carinhosamente que se deixe envolver no sono que teima em não chegar. Minutos depois, na incredulidade de Laura e Afonso perante a fraqueza da nova inquilina, Tania adormece ao lado do casal. Como uma menina que viveu um pesadelo.
Quando a noite cai, a imaginação dramatiza as nossas surrealidades. A madrugada trouxe movimentações na cama. Afonso já mudou de posição uma dúzia de vezes. Laura já se levantou da cama para ir à casa de banho e quando voltou tinha o corpo de Tania no meio da cama. Sem coragem de a acordar, a mulher deitou-se na ponta do colchão. Cobriu o corpo do namorado e da amiga e procurou novamente o sono. Assim que sentiu o leve dormir da colega, Tania muda de posição e coloca-se de barriga para cima. Abre os olhos e mantém-se tranquila com a breve luz que ilumina o quarto. Apesar de estanhar a situação, ao estar envolta pelo casal amigo na mesma cama, Tania sente-se calma. Apesar de não entender o real motivo porque aceitou partilhar a cama, ela considera-se lúcida. Apesar de perceber que nas fantasias mais intimas Laura e Afonso a desejam, ela entende que o propósito de estar ali, entre os dois foi inocente. E assim, ela mantém-se serena. Novamente sem sono, mas absorvida numa introspecção pacífica. No obscuro daquele espaço, protegida pelas pequenas partículas laranjas que o candeeiro da rua lhe oferece, Tania reflecte sobre o seu estado. Acerca do seu papel neste apartamento. Aquilo que, neste instante, o casal representa para si. Do seu lado esquerdo está a representação de um homem apaixonado, liberal sexualmente, amante dedicado, pessoa envolvente. Claro que isto é exactamente uma reprodução do que a amiga lhe conta. Ainda assim, ela crê nessa ideia. Do seu lado direito está o reflexo que ela gostaria de ter. Uma mulher aberta a novas experiências, sedenta de ser amada, com gula de partilhas racionais mas excitantes, ponderada, responsável e com um cariz sensual enigmático. Obviamente isto é uma imagem que a própria Tania espelha na sua mente. Mais uma vez, não deve fugir da realidade. O olhar dela esbate-se no tecto. A noite é longa e nem ela tem a plena certeza dos seus sentimentos e da sua racionalidade. Mas no ocaso desta quase escuridão, Tania vê um espelho no alto do quarto. Um espelho imaginário, é certo. Mas reflecte exactamente o que ela quer ver. Um espelho côncavo, onde a sua figura é predominante. Mas em que lateralmente a si, está o reflexo dos seus desejos, uma extensão dela mesmo. Como um espelho cilíndrico côncavo. O seu reflexo é nítido e concreto, mas na extensão do espelho surgem as imagens ligeiramente distorcidas de Laura e Afonso. Nesta percepção surreal, Tania volta a adormecer.
Quando a noite cai, os desejos envolvem os receios mais profundos. Um sonho forte, extremo e demasiado próximo da realidade explode na mente de Tania e obriga-a a acordar. O corpo dela está numa posição fetal, virada para o namorado de Laura. O rabo está a tocar nas ancas de Laura. As mãos estendem-se no lençol e chegam a tocar o ombro de Afonso. Quando ela abre os olhos, entende o quão próximo está dele. O quanto a sua respiração acelerada esbate no pescoço dele. O quanto toda a sua face está diante do seu olhar, diante da sua boca, diante da sua pele húmida. O sonho de Tania foi intenso. Ela esta a suar ligeiramente e a alça do top escorregou, fazendo descobrir o seu seio. E no momento em que ela toma esta percepção, os olhos de Afonso abrem. Ele não se mexe, mas poe entre alguma escuridão, avalia a proximidade da jovem com naturalidade. Os seus lábios sorriem ligeiramente. Tania prende a respiração e procura reagir. Afastar-se pode ser demasiado brusco. Mover o corpo também. E dentro de todas as opções que ela pode tomar, Tania acaba por agir conforme o sonho lhe indicou. Instintivamente, a sua mão descola do lençol e toca na face de Afonso. A sua boca carnuda aproxima-se do olhar dele e os seus pés tocam levemente nos joelhos dele. Suavemente, gera-se uma aproximação entre os dois. Laura dorme. É a boca de Tania que invade a testa dele, entregando um gesto de carinho. É a mão direita dela que segura os cabelos de Afonso. É a mão esquerda da jovem que agarra a mão do amigo e a traz para junto do seu peito. Afonso percebe que o volumoso seio dela está descoberto e fixa o seu olhar no mamilo redondo, iluminado por um pequeno traço de luz e ligeiramente entesado. A palma da sua mão acaba por sentir que ele está rijo. Os lábios fofos de Tania envolvem a face dele com beijos. Em cada canto, menos na boca. Talvez o medo, talvez o receio, talvez a ansiedade. Mas os lábios dele não foram tocados quando a sua boca já prossegue caminho para o pescoço. Afonso veste apenas uns boxers. Ela avança pelo peito dele, movimentando o seu corpo. Os seus tornozelos roçam agora nos joelhos de Laura. Curto e breve é o caminho que a leva até à cintura do jovem. Em silêncio, sem qualquer pedido, sem qualquer gesto brusco ou atitude que indiciasse algo, Afonso percebe que é Tania que se rende aos desejos do casal. E no instante em que a mão da jovem segura o sexo estimulado do inquilino e a boca envolve a ponta do mesmo, Afonso estende os braços. Sente-se arrebatado pelos lábios carnudos a acariciarem o seu pénis. Tania ousa chupar o amigo, mesmo nas barbas da namorada dele. Ele fecha os olhos e coloca a mão na nuca dela, acarinhando os cabelos da amiga. Ao mesmo tempo, o braço direito dele pousa em cima do corpo de Laura. A mulher desperta. A boca de Tania a roçar no sexo masculino emite um som lascivo. Juntamente com a língua que procura conhecer o sabor do órgão, a mão encarrega-se de estimular progressivamente o objecto de desejo do jovem. Laura sente a mão do namorado percorrer o seu tronco. É apalpada nos seios e pressente a ponta dos dedos roçar a sua barriga, até alcançar o ventre. Aí, nessa sua zona sensível, ela sente dois dedos a irromperem por entre os seus lábios vaginais. A noite é escura, misturada entre desejos e receios. Mas a cama do 2º direito é iluminada com a energia de Afonso, que para além de ser chupado pela amiga, masturba a sua namorada.
O broche de Tania é suave, calmo, mas progressivo. Ele está verdadeiramente excitado e entusiasmado. Laura está finalmente acordada. Quando julgava que o seu namorado se excedia em tocá-la diante da amiga taciturna, ela levanta a cabeça e realiza o que ocorre à sua volta. A sua colega de trabalho, com insistência renitente em envolver-se a três, está agora a dar prazer oral ao homem que lhe pertence. Após alguns segundos de estupefacção, Laura pressente a realidade e sorri. Finalmente, a aproximação à jovem deu fruto. E o seu clitóris, até aqui adormecido e acariciado por Afonso, acaba por brotar e entesar-se. O olhar da mulher quer assistir, deixar as coisas correrem. Ainda assim, ela não resiste e coloca uma mão na cabeça de Tania. Acaricia os cabelos e incita-a a prosseguir. Sem uma explicação interior lógica, a jovem sente-se estimulada a continuar.
Quando a noite cai, os impulsos corporais dominam o controlo mental. Laura está entesada. O trabalho manual do namorado na sua rata surte efeitos assim que ela sente uma célere excitação na sua rata. Tania lambeu por uma derradeira vez o pénis do amigo, deixando-o húmido, tenso e firme. A mão da colega de Laura segura a picha pela base, apertando os testículos dele e depois movimenta-se. Tania está agora de joelhos fincados no colchão, com o tronco erguido. Tania está preparada para deixar o impulso controlá-la. Tania sente-se capaz de receber o pénis de Afonso dentro de si. Assim que a ponta do sexo expande ligeiramente os seus lábios vaginais algo molhados, ela liberta a mão e coloca-a na barriga dele. A sua cintura, que até aqui aguardava impacientemente pelo alinhamento de todos os gestos necessários, deixa-se cair sobre o corpo do homem. Vagarosamente, o pénis de Afonso penetra cuidadosamente por entre as pernas de Tania. Laura assiste. Excita-se com a sequência de acontecimentos e aguarda ansiosamente pelo que ainda está para surgir. A sua respiração está ofegante, as suas pernas estão abertas e o seu peito está tenso. Com o olhar preso no semblante de Afonso, a nova inquilina deste apartamento sente cada pedaço carnal a entrar dentro de si. Inspira e expira com uma boa dose de nervosismo. Ela nem quer acreditar que existe um homem para além do seu ex-namorado a entrar dentro de si. Ela nem quer acreditar que isso sabe tão bem. Ela nem quer acreditar que a presença de Laura a excita descontroladamente. Ela nem quer acreditar que o seu clitóris possa estar tão rijo. Ela não pode acreditar que a sua colega de trabalho está a vir-se diante de si e que os dedos de Afonso ainda a penetram vigorosamente. Ela recusa-se a crer que o sexo dele incha a um ritmo alucinante de cada vez que ela cavalga sobre ele. Ela tem dificuldade em entender que é possível as mãos dele repartirem-se entre a rata da namorada e as mamas dela que pulam para fora do top. Após alguns minutos intensos e inesgotáveis, Tania quer acreditar que o seu orgasmo vai surgir e que aquilo não será deveras um sonho. Ela olha para Afonso. Sabe que ele também chegou ao seu auge. Ela olha para a amiga. Entende que ela está a tirar satisfação de tudo isto. Ela retorna o olhar para ele. Pressente a tensão na face dele, ansioso para lhe proporcionar prazer. Ela retorna os olhos para Laura. A amiga entende a tesão dela e aguarda também pelo orgasmo da jovem. O olhar acaba por fixar-se no novo amante. Quando perde o controlo sobre si mesma, Tania cerra levemente os olhos e sente um calor húmido a explodir dentro de si. Ao mesmo tempo, a sua rata lateja, o seu ventre fervilha, os seus mamilos incham e os seus lábios palpitam. A jovem morena vem-se e sente Afonso a vir-se dentro de si.
Quando a noite cai, aquilo que se teve medo de imaginar torna-se uma realidade natural. Tania libertou as mãos e deixou pender o seu corpo para diante. Mas ao contrário do que o amante poderia julgar, ela não se deitou sobre o seu peito. Sem libertar o pénis dentro da sua rata, Tania alterou o rumo do seu corpo e deitou-se sobre o colo de Laura. Procurou o seu conforto meigo, as mãos que entendem, o carinho que a conforta, os gestos que a devolvem à sua racionalidade. Agora já não há retorno. Tania entregou-se à virilidade apaixonante de Afonso, tão propalada pela namorada. Tania aceitou a presença excitante e voyeurista de Laura, em conformidade com as práticas ousadas que o casal experimenta. Numa noite longa, em que os pensamentos desenrolaram, as fantasias proprocionaram prazer pessoal e os receios reformularam-se em desejos concretos, o casal e a sua amiga espelham uma imagem partilhada. Os três fazem parte da mesma acção. E dentro do 2º direito há um novo conceito de intimidade.
Quando a noite cai, o sonho excitante amanhece. A escuridão dá lugar à luz matinal e algo pesa na mente de Tania. Ela não se sente arrependida. Ela sabe o que fez, porque fez e de que forma aconteceu. Ela não ousa pensar que foi um erro. Mas assim que a manhã lhe traz uma nova lucidez, parece ser dificil acreditar que o sonho que o seu espelho reflecte no ocaso da escuridão se tornou uma realidade consequente. Ainda assim, perdida numa apartamento que não é seu, perdida de outro lar que já deixou de ser seu, Tania procura encaixar-se no concreto que ela vai aceitar. Aninhada no colo de Laura, a jovem fecha os olhos, dando tempo a si própria para aceitar o presente. Afonso e a sua namorada sentem-se concretizados. No momento em que deram espaço à jovem para não se sentir pressionada a aceitar o convite deles, uma noite obscura traz mais do que um pesado fantasma. Quando os olhares deles se trocam, sabem que o parceiro experimenta satisfação, prazer, animosidade, paixão e um reflexo mútuo do que sentem.

terça-feira

Encarregada. Vendedora. Técnico.

Publicado a 06-06-08
Devoção. É isso que mantém a mente de Laura atenta em cada passo da preparação de um jantar. Não é um jantar qualquer. Não é apenas uma mera refeição preparada para o namorado e para a filha, onde a condimentação é um factor essencial para que haja gosto no que se degusta. Desta vez não. Há um motivo especial. Há uma razão essencial para que a devoção da mulher ultrapasse os limites. Há uma intuição que a faz exigir mais de si mesma. E isto funciona em cada pedaço da sua vida. Na cozinha, onde algo divinal é sempre cozinhado. Nas tarefas domésticas, em toda a perfeição que a sua casa merece. No amor à filha, eterno e cadente. Na paixão com o namorado, onde até um simples beijo pode ser um prazer sublime. E no trabalho. No labor que executa diariamente com dedicação. Nada é deixado ao acaso. O que é para fazer no momento seguinte, já está feito. Por esse motivo, Laura é Encarregada de uma loja de pronto-a-vestir de luxo e só pode ter um orgulho imenso nisso. Por toda esta personalidade, este jantar caracteriza-se por uma devota demonstração de bom gosto, requinte e encantamento.
- Porque é que te dás a tanto trabalho, Laura?
- Talvez porque gosto de ti, porque gosto de comer bem e porque nos faz bem uma noite com um jantar assim.
- Não era preciso.
Pouca coisa pode ser precisa para Tania. Pouco a segura a algo. Pouco lhe podem dar que suporte o peso no coração. No espaço de dez minutos, ela perdeu um namorado e uma amante. E é difícil encontrar formas de suster um impacto tão forte na mente. Um convite para jantar parece sincero. Despretensioso. Inconsequente. Um serão diferente com pessoas que a podem ajudar a abstrair do lar que desabou sobre si. Deste casal, Tania não pode exigir nada. Nem o casal vai exigir dela. Só pode ser um momento agradável. A jovem trabalha numa loja de roupa. É vendedora. Dedicada. Esmerada. Eficaz. Vigorosa em cada tarefa que executa. Jovial na forma como recebe os clientes e entusiasma a equipa. Tania trabalha numa loja de roupa de alta costura no centro comercial da cidade e isso tem sido o seu escape. Para além de partilharem a condição de vizinhas, Laura e Tania são colegas de trabalho na mesma loja. Há cerca de sete anos, a jovem colocou um currículo no espaço comercial onde a mulher se encarregava de gerir. Apesar de algum atrito inicial entre as duas, Tania tinha o perfil necessário para o que Laura pretendia. Daí em diante, para além da empatia constante, havia uma simbiose de trabalho. Tal facto traduziu-se em sucesso profissional. A dedicação deu lugar ao entusiasmo. E hoje, nenhuma delas se imagina a trabalhar distante uma da outra.
- Já sabes qual é o teu lugar, Tania. Queres vinho rosé? Fica à vontade e serve-te. - diz Afonso.
O facto de morarem no mesmo andar, do mesmo edifício é mera coincidência. o 2º esquerdo tinha um quarto para alugar e Tania necessitava de um sitio para ganhar a sua independência a um preço acessível. Nem Laura sabia que a sua funcionária estava à procura de casa, nem Tania sabia onde a sua encarregada morava. O conhecimento mútuo da condição de vizinhas só foi conhecida quando a jovem deu conhecimento à sua superior de que a sua morada tinha alterado. Não obstante o entendimento profissional, as duas colegas partilharam uma amizade que apesar da diferença de idades, ganhou força no reconhecimento das qualidades uma da outra. Quando Afonso surgiu na vida de Laura, a aproximação foi ainda mais intensa. Cafés no intervalo do trabalho, conversas longas no Espaço Magnolia, viagens no mesmo carro até ao centro comercial, confissões sobre namorados, cusquices sobre sexo, pressuposições de fantasias, aparentemente inatingiveis. Tania, Laura e Afonso partilham desde há algum tempo momentos em comum. E estes pedaços nunca se enrolaram com a intimidade do casal, com o relacionamento que a jovem mantinha com o namorado e com a parceira da apartamento e amante. A amizade entre os três adultos nunca se misturaram com a vida sexual. Pelo menos no que toca a relacionamento carnal concreto.
- Está muito bom, Laura... Eu não sei como fazes isto, mas está delicioso.
E sim, a Tania é o objecto de desejo e fantasia de muitas noites quentes de Laura e Afonso. Ela é a colega de trabalho que o casal sonha em trazer para a sua cama. A jovem sabe disso. Pressente as atitudes do casal. Muito do que é falado é num tom de brincadeira. Mas até a ingenuidade de Tania entende que o intuito é verdadeiro. Se ela dissesse que sim, algo forte aconteceria. Ela denota-o nas palavras ousadas de Laura. Ela sente-o nos olhares intensos de Afonso. Mas esconde a inevitabilidade que o casal parece demonstrar. Retira do prato um pedaço do salmão e leva-o à boca. O seu olhar divaga. A conversa dissipa-se. O jantar prossegue. A filha de Laura já saiu da mesa. Dirigiu-se ao quarto onde brinquedos que a fazem sonhar conseguem retirá-la de um mundo de adultos, cheio de conversas aborrecidas.
- Ainda não me respondeste, Tania...Como é que estás?
- Estou uma merda... Estou uma grande merda...
- Sabes que não te podes deixar vir assim abaixo.
- O meu namorado é um cabrão de primeira e deixei-me levar por um romance patético... Acredita, tenho mesmo que me vir abaixo.
- Tens que te levantar... De alguma maneira.
- Achas que consigo voltar a acreditar nos homens?
- Porque não? - pergunta Afonso.
- Foi com ele que perdi a virgindade. Tudo o que sei gostar e amar foi devido a ele. E pelos vistos não o fiz da melhor forma.
- A culpa não é tua...
- Se eu não tivesse os olhos tão tapados...Bolas, sabes o quanto me sinto usada?
- Ele já voltou a falar contigo?
- Tenho tido uma média de cinco chamadas por dia dele e mensagens absurdas.
- Respondeste-lhe?
- O que é que ia dizer? "Sim, vamos falar sobre todas as cabras que comeste a rata enquanto eu esperava por ti"? Não tenho nada a dizer-lhe! Aliás, não quero ter mais nada a ver com aquele merdas...
- Eu entendo, Tania.
Laura coloca a palma da mão sobre os dedos de Tania. É dificil entender o que pode passar na cabeça desta jovem, quando se sente duplamente traída. O mais penoso é talvez sentir a passividade e ingenuidade perante o que estava a acontecer. Talvez Tania sempre tivesse percebido que Filipe não era fiel. Talvez ela se quisesse enganar a si mesma. Mas ninguém quer ser magoado. Ninguém se quer magoar a si mesmo. Então porque é que Tania fechou os olhos durante tanto tempo? Uma lágrima solta-se do olho dela. Tania procura escondê-la. Ainda assim, ela sabe que esta sala é o único sitio onde a sua lágrima pode ter algum valor. Laura sorri para a colega e amiga, levantando-se depois para preparar café para os três. Afonso olha para Tania, procurando esboçar uma reacção que tranquilize a vizinha.
- Gostava de ser como vocês, Afonso.
- Como nós?
- Sim... Saber partilhar. Encarar os ciúmes como algo que nos fortalece. Eu sou uma fraca. Quando fico com ciúmes, escondo-me...E depois odeio-me. E depois choro sozinha.
- Sabes que podes sempre contar connosco para esquecer os ciúmes...
- Pois...mas eu acho que sou larga demais para caber na vossa cama.
Ouvem-se risos. Mais uma vez, há um convite subtil, uma forma descontraida de sugerir um envolvimento. Mais uma vez, Tania sabe rodear a proposta, brincando com a ideia. Ainda assim, as palavras de Afonso conseguem confortar a jovem, numa certa medida. Laura traz os cafés.
- E a Lúcia? - pergunta Laura directamente.
- O que é que tem?
- Como é que estão as coisas?
- Não sei...Sinceramente, não sei.
- Têm falado?
- Temos...Sim, temos... Quer dizer, nunca mais foi o mesmo. Mas conseguimos estar juntas. É confuso... Ela fala-me... Eu também não consigo deixar de lhe responder... Tento não estar ao pé dela, mas parece que é impossivel....e...
- O que é que falaram?
- Sobre nós...
- E o que é isso "sobre nós"?
- A Lúcia quer sair de casa. Acha que se eu não a consigo perdoar não há razão para vivermos debaixo do mesmo tecto.
- Consegues perdoá-la?
- Não sei... É complicado. Foi demasiado forte. Foi uma mentira muito grande. Foram demasiadas coisas que eu não sabia. E quando confiamos demasiado nas pessoas, parece que a facada é maior.
- Não me respondeste com franqueza. Vais perdoá-la? Sim ou não?
- ...Não...Sim...Eu quero perdoá-la. Mas não consigo. Entendes?
- Talvez...
- Vais deixá-la sair de casa?
- Não.
- Ela vai sair?
- Não.... Quer dizer...acho que não. Pelo menos quando ela acordou disse-me que não.
- Desculpa?! Quando ela acordou??
- Sim. Antes de ontem.
- Antes de ontem o quê, Tania?
- Eu e a Lúcia...Eu e ela....Nós adormecemos juntas antes de ontem....
- Assim, sem mais nem menos? Na mesma cama?
- Sim...mas foi porque....tivemos uma discussão...ela estava a chorar e a fazer a mala e a vestir-se e...eu estava a chorar e a berrar com ela...e eu não queria que ela saisse e...e depois eu beijei-a e...
Laura mantém um ar incrédulo. Quer largar um sorriso de troça, mas também quer perceber a sucessão de acontecimentos no 2º esquerdo. Decide ficar calada e esperar que por si só, Tania desabafe.
- Tomei um banho com ela.... Era isso ou tomar banho de água fria...Nada de mais. Não é a primeira vez e....falámos. Falámos... Acho que foi falar.... Ela pediu-me para entender o que aconteceu...Eu disse que não conseguia...Ela queria pedir que eu a perdoasse. Via-se nos olhos dela...Disse-lhe que já não conseguia confiar em ninguém. Comecei a disparatar...
- O que é que disseste?
- Disse-lhe que ela queria foder toda a gente... O Filipe, a Joana....eu... Ela começou a chorar e saiu da banheira... Eu sei que disse merda... Mas é aquilo que tenho sentido. Nem sequer o consigo evitar.... Mas sei que não devia ter dito aquilo....Fui ter ao quarto dela... Nem me fui vestir e ela deixou de dizer fosse o que fosse e eu tentei dizer-lhe que não conseguia esquecer que ela me escondeu coisas e....Bolas, porque estou eu a tentar justificar-me?!...
- Queres tentar perdoá-la, Tania...
- Não, não quero, Laura! Só não quero que ela se vá embora.
- E no entanto, ages como se quisesses que ela saisse...
- Talvez...foi por isso que discutimos...Nem sei como aconteceu. Mas...quando ela parou de chorar, segurei-a. Ela estava nua e com a pele suave e nem sei o que me passou pela cabeça...Deitei-a na cama e...ela adormeceu...
- E tu adormeceste com ela....
- Sim...
- Isso devia ter melhorado alguma coisa.
- Mas não melhorou. Só piorou.... De manhã, a Lúcia acordou e ia levantar-se para fazer o pequeno-almoço dela. Agarrei o braço dela e perguntei se ela ia embora. Respondeu-me que não.
- E então?
- Antes dela sair para as compras, ela olhou directamente para mim...Tinha um ar de derrotada. Disse-me que...Disse-me que de facto estavamos as duas a cometer um erro. A tentar resolver uma paixão que nunca poderá existir...
- E o que respondeste?
- Não respondi. Deixei-a sair...
- Tania...
- Ela tem razão....Não nos vamos entender. Quem é que estou a tentar enganar? Eu é que devia sair. Fui eu que cedi à tentação. Fui eu que achei que não teria mal nenhum guardar uma pequena paixão. A verdade é esta...Como posso eu levar o Filipe a mal, se eu própria o traí? Talvez ele é que tenha razão. Ponho-me a pensar como é que me deixei levar por uma tentação parva.
- Acho que estás a exagerar...
- A Lúcia tem razão....Isto não nos leva a lado nenhum. Eu não consigo perdoá-la mas quero fazê-lo. A Lúcia sente que eu não vou conseguir gostar dela. Pelo menos para a fazer feliz... E estamos nisto.
- Dá um tempo...
- Não sei... Estou tão confusa... Eu não quero que ela se vá embora. Mas tem sido dificil morarmos juntas. É muita coisa misturada.... Ela deve estar a chegar e nem sei como vou olhar para ela...
- Queres dormir cá? - pergunta Laura, gentilmente.
- Obrigada...Mas não... O melhor mesmo é eu ir embora, também... As noites só acalmam quando entramos cada uma no seu quarto e esperamos pelo dia seguinte.
Laura inspira fundo. Tania limpa as lágrimas. Afonso divaga o olhar. O jantar está a terminar e há um incoformismo no ar. A encarregada de loja percebe a confusão da amiga. Procura pensar numa solução, mas nem ela percebe o que vai na cabeça da sua vizinha. Jamais Laura conseguirá imaginar o que Lúcia poderá achar de tudo isto. E no decorrer de tudo isto, Tania está efectivamente perdida. O namorado não deve guardar um único ressentimento de ter despoletado uma cena insólita. Lúcia não consegue justificar o beijo que ela não quis aceitar. Perdoar é complexo. Esquecer é impossivel. Um apartamento parece minúsculo demais para tanto sentimento disperso.
- Sabes que estamos aqui ao lado, sempre que precisares... - solta Laura.
- Obrigada...Vemo-nos amanhã na loja.
Tania levanta-se da mesa e pega na sua mala. Com um ar cabisbaixo, com um semblante vazio, com a respiração presa, ela avança em direcção à porta de saída, ao mesmo tempo que a anfitriã começa a recolher os pratos. Afonso prepara também ele para saltar da cadeira, mas após inspirar fundo, decide exprimir o que a sua mente vinha a reflectir.
- Tania...eu sei que não vais aceitar passar cá a noite.
- Não...não vou...E agradeço o vosso convite. Tenho o coração a bater tanto e tenho um ódio tão grande a tanta coisa que podia acontecer alguma coisa que nos iriamos arrepender todos....
- Também não é caso para tanto... - continua Afonso - Esta noite não. Esta noite vai servir para pensares.
- Pensar no quê? Estou farta de pensar! O que é que há para pensar?....
- Talvez fizesse bem a vocês as duas uma separação...Nem que fosse por algum tempo.
- Não vou mandá-la embora, Afonso!
- Poderias passar uns tempos aqui em casa.
- Desculpa?!
Tania fixa o olhar em Afonso. O seu ar abatido transforma-se agora numa postura de incredulidade. Laura também não consegue esconder a surpresa. O convite revela-se ousado. Vindo da boca de Afonso parece mesmo atrevido. Ainda assim, denota-se no olhar do jovem a sinceridade e objectividade no que diz. A tranquilidade com que as palavras saem da boca dele transmitem confiança. É inegável. É a dedicação dele. O jeito como comunica, a capacidade de querer alcançar as pessoas, o indesmentível carisma em expressar o melhor de si, no momento certo. Talvez faça parte da sua aprendizagem profissional. Talvez seja algo intrísseco a ele. Mas a forma como ele usa as suas capacidades profissionais na sua vivência social, apenas demonstra algo. A sua dedicação ao que faz.
- Estarás a dois passos da tua verdadeira casa. Pensarás somente naquilo que te deixa tranquila. Não terás que ser confrontada com aquilo que neste momento te magoa. Não tens que sentir receio em entrar em casa. Sabes que gostamos de ti. Sabes que te vamos apoiar, aconteça o que acontecer. Vem viver connosco... Sabes que temos um quarto de hóspedes. Temos o nosso quarto, mas isso é outra conversa...
- Não sei.
- A Laura aconselhou-te a dares tempo. Mas eu acho que não é o tempo que resolve os nossos problemas. Talvez também não seja a distância. Mas se a tua mente se abstrair e se separar daquilo que a magoa, mais fácil será aceitar isso e colocar por trás das costas. O ódio na tua mente não desaparece, mas desvanece.
E Tania acredita nele. E Laura envolve-se no convite do namorado, apoiando as palavras dele. A encarregada lança um sorriso à amiga, como uma confrontação com o pedido sincero. Tania sente-se tentada a responder. Na confusão da sua mente, parece fácil dizer que sim.
- Deixem-me pensar...pode ser?
Ela respira fundo. Morde o lábio inferior, deixando no ar a ideia de que o convite lhe agradou. Mas a noite já vai longa e confessar uma resposta positiva pode ser precipitado. Há uma ansiedade na sua face. Laura entende que ela pretende chorar, mas não o quer fazer ali. Aproxima-se dela, entrega-lhe um beijo na maçã do rosto e pega no braço dela, para a acompanhar à saída. Antes de sair da sala. Antes de entrar em casa e fechar-se no quarto. Antes de se entregar mais uma noite às lágrimas. Antes de encerrar mais um dia, Tania liberta um sorriso silencioso a Afonso. As palavras dele acabam de iludir o caminho do destino.